Beatriz Wagner
Diretora do Programa de Língua Portuguesa
Rádio SBS da Austrália
EDITORIAL
Havia um trote e há uma injustiça circulando na mídia internacional e no universo online.
O trote do falso presidente Lula dando entrevistas a rádios ao redor do mundo foi sustado. A injustiça ainda se perpetua.
Tanto o detectar do trote como a injustiça são um pouquinho como o ovo de Colombo desta estória: uma vez em pé, todo mundo poderia tê-lo feito antes.
No processo do trote há três fases: a obtenção e gravação da entrevista, a sua posterior divulgação para fins humorísticos e finalmente a radiodifusão da entrevista pelas emissoras vítimas do trote, espalhadas pelo planeta.
Os locutores de uma rádio de São Paulo foram bem-sucedidos nas três fases do trote com rádios de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Uma emissora do Canadá desconfiou e não caiu no golpe, consultando o governo brasileiro.
Um dia após a consulta da rádio canadense a Brasília, a 6 de novembro, emissoras da Austrália e de Timor-Leste gravaram as entrevistas, mas descobriram a farsa, independentemente, a tempo. Em Timor-Leste, a entrevista que iria a ar à noite e na Austrália, aonde estava prevista para ir ao ar no dia seguinte, sábado, foram canceladas. Mas a Rádio SBS fez uma denúncia formal a Brasília, com um pedido de investigação policial.
Uma vez gravada a entrevista, o suposto presidente Lula da Silva e o seu suposto assessor Caio Martins usam uma tática velha e batida de fazer graça: a descontextualização.
O truque dos fraudadores é barato e banal: a substituição das respostas do falso presidente pelo escracho total, mantendo as perguntas do jornalista. Mas somente eles sabem disso, não os seus ouvintes e internautas.
Para isso, durante a entrevista, o falso Lula tenta o seu melhor para falar sério. Algum talento ele há que ter. Precisa inspirar confiança para conseguir levar a entrevista o mais longe possível.
Até eu mesma, ainda estudante, usei isto no meu trabalho final de rádio na universidade, mas fiz o reverso: mantive as respostas dos entrevistados e troquei todas as minhas perguntas. Foi uma brincadeira inócua com professores do curso de jornalismo na época, numa suposta reportagem com eles no futuro, exatos 20 anos depois, extrapolando ao extremo as características mais marcantes de cada personalidade. Divertido.
De volta ao falso Lula. As emissoras de rádio enganadas editam o seu material e o colocam no ar. Os falsários fazem o mesmo, mas mudam as respostas do falso presidente.
E deitam e rolam. Vale tudo: sons de metralhadora, papagaios, o falso presidente pede os seus chinelos. Faz declarações surreais: macacos nas árvores para cuidar da segurança, que quer alterar a trajetória do planeta para ter mais sol no Rio. E o seu público fiel delira. O imitador engana agora a sua audiência, fazendo o público acreditar que aquelas foram as respostas que o falso Lula deu na hora da entrevista.
De uma tacada, enlameiam a autoridade máxima do Brasil, o jornalista, a emissora de rádio em que trabalha e, de revesgueio, o país alvo do trote.
Mas ainda há um caldo a tirar de tanto esforço de enganar. É a terceira fase do trote: a entrevista concedida às rádios no exterior vai ao ar nos países que caíram no conto. Aconteceu em Angola, Moçambique e Cabo Verde. Poderia ter acontecido na Austrália e em Timor-Leste.
Quantas emissoras no total foram contatadas? Quantas se deram conta? Quantas consultaram o governo brasileiro? Quantas foram ludibriadas? A investigação da Polícia Federal deverá descobrir.
Enquanto os falsários se estrebucham de rir com o trote indo ao ar no Brasil, e todos sabem que é um trote, alguém ainda poderia argumentar que estamos no campo do debate ético-humorístico.
Mas quando o impostor permite ser apresentado em rede nacional de rádio, em vários países, como sendo o Excelentíssimo Senhor Luís Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa do Brasil, ou seja, ao assumir a identidade do presidente, as consequências mudam. E podem ser desastrosas.
Troteiros profissionais sabem o momento certo de se revelar às suas vítimas, de declarar o trote. É quando o seu objetivo foi alcançado.
A saga do falso Lula acaba ganhando dimensão internacional.
Na cobertura do caso, alguns jornalistas, tanto do Brasil como do exterior, acabam caindo num segundo trote. Ouvem a gravação disponibilizada pela rádio troteira, com as respostas trocadas e agora, sim, grotescas, e concluem, sem checar as fontes, que aquela entrevista absurda foi ao ar neste ou naquele país.
Assim como alguns jornalistas de rádios no exterior caíram no trote do falso Lula, quase todo mundo acreditou no trote duplo dos falsários: que o que foi ao ar no Brasil para divertir a audiência não tinha sido manipulado.
Os fraudadores enganaram quase a todos: aos jornalistas no exterior, ao seu público, aos internautas e aos jornalistas que tripudiaram na ingenuidade das vítimas diretas do falso Lula.
Segunda o agência EFE de notícias, uma fonte do governo brasileiro teria dito que a entrevista enviada pela SBS era uma imitação grotesca. Mas a SBS ainda está por enviar a entrevista ao Brasil.
Acreditar que aquelas respostas grotescas do falso Lula foram ao ar em Angola, Moçambique e Cabo Verde é tão surpreendente quanto cair no conto do presidente de mentira.
Nenhuma das entrevistas originais, que foram ao ar nos três países vítimas, está disponível na internet. Nem as gravações da Austrália ou de Timor-Leste.
Não basta à vítima do trote a vergonha de ter caído nele. Colocando sal na ferida, há que somar a isso a humilhação das reportagens e dos comentários dos blogs, dos internautas e, pior, de colegas de profissão. Ter que ouvir que eram ingênuos a ponto de ouvirem as maiores barbaridades do suposto Lula e de terem continuado a entrevista. O que não foi o caso.
Inaugura-se uma espécie de “jornalismo de espelho”, aonde o repórter, o roto falando do rasgado, se vê refletido na crítica que faz.
Note-se que também jornalistas estrangeiros engoliram este segundo trote. Não foram apenas brasileiros que acreditaram que a verdadeira-falsa entrevista era, na verdade, falsa-falsa, duplamente falsa.
Quem caiu no engano aqui? Humilhação de quem, cara pálida?
O trote foi denunciado pela Rádio SBS da Austrália na sexta-feira, dia 6 de novembro, a Franklin Martins, Secretário da Comunicação Social da Presidência, acompanhado de um pedido formal de investigação policial.
O caso do falso Lula passou da Secom para o GSI, Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e de lá acabou nas mãos da Polícia Federal brasileira, para investigar se houve, ou não, crime de falsidade ideológica.
Sydney, 14 de novembro de 2009 |